Diálogo #01

Atualizado: 22 de Dez de 2020

Demônios da Tia Lillith, esse assunto precisa de muita paciência e concentração. Vamos introduzir os diálogos e depois aprenderemos como escrevê-los.


Parece uma ideia boa para vocês? Espero que sim.


Primeiramente, vamos bater um papo sobre diálogos? Me digam aqui nos comentários quem tem dificuldade com os diálogos.


Para a Lillith, e a maioria dos escritores, diga-se de passagem, o diálogo é a forma do autor dar vida ao personagem! É através dos diálogos que nós conseguimos conectar o personagem com o enredo e, principalmente, com o leitor. Os diálogos dizem muito sobre a personalidade do personagem, seja qual ele for.


Por exemplo, vamos supor que eu gostaria de afirmar que o meu inimigo é muito malvado. Eu poderia fazer dessas duas formas:


  • Josias era um dos demônios mais agressivos do submundo. Era extremamente frio, calculista e se divertia matando os que tinham coragem de lhe cumprimentar.


  • — Você realmente achou que eu deixaria você andar de boa pela terra? — Josias riu. Ele pegou uma adaga e começou a cortar minha pele, começando do meu pulso até o meu ombro. Mordi os lábios para segurar o grito e dor, enquanto o sangue escorria até o chão imundo do beco onde estávamos. — Que gracinha, ainda acha que pode me contrariar? Pensou mesmo que seria capaz de me matar? Vou te lembrar o porquê não se brinca com a minha paciência... e eu vou gostar bastante dessa nossa brincadeira.


Essas duas formas apresentam Josias, o demônio, como alguém sem escrúpulos, maldoso, beirando a psicopatia. Entretanto, vocês perceberam a proximidade da cena com o leitor quando ela está em um diálogo? Está tudo bem você narrar, contudo, não tem como negar que um bom diálogo atrai muito mais do que uma narrativa corrida.


Nas descrições, que é o caso da primeira opção, temos uma influência muito forte do narrador, ele escolhe a forma de descrever que reforce a sua perspectiva do que realmente está rolando na história. Ele tem o poder de guiar o leitor para interpretar a história da forma como ele deseja.


Me digam vocês, na primeira hipótese, teriam alguma dúvida a respeito do caráter de Josias? Eu afirmei que ele era horrível e vocês entenderam isso. Contudo, na segunda hipótese, eu MOSTREI, então vocês que vão tirar suas próprias conclusões.


Agora que batemos esse papinho, vou expor alguns pontos extremamente importantes. Deixo o agradecimento ao escritor do Blog Ficção em Tópicos pela sua didática. Estou aprendendo tanto quanto vocês! Vou sair desse Coach do Desespero e tentar achar um emprego em alguma editora.

1) TODA FALA É UMA AÇÃO EM FORMA DE PALAVRAS!


Sempre que abrimos nossa boquinha para falar, estamos fazendo alguma coisa: ofendendo, criticando, elogiando, sugerindo, consolando, acusando, atacando, recusando, aceitando. Para escrever diálogos envolventes, vocês precisam encontrar falas que representem a forma particular como cada personagem usa linguagem para tentar fazer alguma coisa. Não escrevam diálogos sem vida!


Exemplo:


— Ele morreu.


— Ele morreu, cara, está mortinho, um presunto no chão! — gritou Lucas, desesperado, passando as mãos pelos seus cabelos. Valentim ainda segurava a arma com um olhar de descrença. Ele tinha matado um homem?


Entenderam?

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2) DEFINA QUE IMPRESSÃO QUE VOCÊ DESEJA QUE O LEITOR TENHA DE CADA PARTICIPANTE DO DIÁLOGO.


Que emoção melhor representa cada personagem nesta cena? Corajosa? Agressivo? Deprimido? Impaciente? A resposta para essa pergunta é um bom guia para você decidir que falas causariam essa impressão. Considere, por exemplo, como uma pessoa deprimida responderia ao convite para ir a uma festa, ou como uma pessoa agressiva responderia a um comentário sobre como o dia está bonito.


Exemplo:


— Sabrina, você gostaria de ir para a festa de despedida de Joseph? — questionou Samantha.


— É... Então... Não sei se ele gostaria de me ver por lá, pelo menos não depois de tudo que aconteceu entre nós... — Suspirei e me joguei no sofá do meu escritório. Eu mesma tinha me colocado nessa confusão, agora aguentaria as consequências.


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3) PESSOAS DE VERDADE CONVERSAM SOBRE COISAS ALEATÓRIAS.


Diálogos que começam muito direto ao ponto, incluindo apenas o que o escritor precisa que os personagens falem para seguir desenvolvendo a história, parecem artificiais e sem vida. Para que seus diálogos soem mais verossímeis, experimente iniciar a conversa com um assunto completamente aleatório e, em seguida, faça com que as falas, naturalmente, comecem a focar no tópico desejado.


Exemplo:


— Lillith, você já colocou quatro colheres de açúcar nesse seu cafezinho — disse Luciela, me assustando.


— Hei, pode parar de me encher o saco, estou sem paciência hoje! — Era verdade. Não tinha conseguido dormir depois de saber sobre Abaddon em Nova Orleans.


— E quando é que você tem paciência? — Luciela se sentou à nossa mesa de refeições na cozinha. Ela me analisou por algum tempo e franziu o cenho. — Você não me parece muito bem... O que está acontecendo, Lillith?


— Abaddon... Ele... Ele está me visitando nos meus sonhos, me azucrinando, não aguento mais! — externei, visivelmente cansada de toda essa história com esse filho da puta desse demônio.



4) CONSIDERE QUEM PARTICIPARÁ DA CONVERSA E AS INTENÇÕES DE CADA PERSONAGEM.


Pense nas suas motivações, objetivos e desejos dentro do contexto da cena. As falas de um personagem podem assumir significados e nuances completamente diferentes, dependendo da intenção por trás do que ele diz. A fala "Me dá sua mão" tem um tom e um significado diferente se o personagem deseja consolar a mãe ou se ele deseja seduzir a vizinha. Considere cada fala como uma tentativa de um determinado personagem para provocar uma reação que o ajude a alcançar algo que ele deseja naquele exato momento.

  • — Você parece faminta hoje, Lillith — afirmou Pandora, entrando na nossa sala de reuniões.

  • — Você parece faminta hoje, Lillith — Max sorriu maliciosamente, abrindo a porta do seu quarto no hotel para que eu pudesse entrar. Estava mesmo faminta. Faminta por ele.


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5) ESQUEÇA FORMALISMOS E REGRAS GRAMATICAIS.


Fale como seus personagens falariam, considerando sua educação, profissão, personalidade, identidade, senso de humor. Cometa os erros que eles cometeriam. Construa a voz de cada personagem considerando a forma como você os apresentou antes do diálogo. Experimente selecionar algumas palavras-chave para caracterizar o jeito de falar de cada personagem.


Exemplo:

  • — BORA, LILLITH! PARECE A DROGA DE UMA LESMA — gritou Pandora.

  • — Vamos embora, Lillith! Está parecendo que você se transformou em uma lesma — gritou Pandora.


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6) IGNORE SEUS VALORES E CRENÇAS PESSOAIS.


Pense, sinta e fale como cada personagem. Permita que eles expressem suas opiniões, mesmo que você não concorde com elas. Escrever as falas de um antagonista o caracterizando como uma máquina de maldades e imoralidades, somente para reforçar o quão maravilhoso é seu protagonista, resultará em um diálogo superficial e melodramático. Todo personagem se considera o herói de sua própria versão da história. É seu trabalho como escritor descobrir a versão de todos os seus personagens principais e escrever suas falas tendo como base suas motivações e desejos.


Exemplo:

  • — Não posso deixar a Lillith escapar dessa... Ela está poluindo o mundo e Lúcifer não consegue ver — disse Abaddon para ninguém em especial. — Se nosso pai está cego de amores, eu mesmo irei resolver esse problema. Lillith precisa morrer. Farei com que seu sangue seja drenado do seu corpo enquanto ainda estiver viva, assim conseguimos aproveitar um pouco da sua magia.


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7) CERTIFIQUE-SE QUE O LEITOR PODE FACILMENTE IDENTIFICAR QUEM ESTÁ FALANDO EM CADA LINHA.


Procure usar o vocabulário, a inflexão das frases, o ritmo da fala e peculiaridades da personalidade de cada personagem para ajudar o leitor a identificar quem está falando.


Exemplo:


— Alta sacertodisa, preciso falar com a senhora — afirmou Ohana. Onde está Lillith e Luciela? Não tenho tempo para conversas.


— Diga logo o que você tem para dizer, não tenho tempo para ficar fofocando, preciso terminar essas poções — disse.


Para os que não conhecem o Frank, existem apenas três alta sacerdotisas, sendo elas a maravilhosa, linda, espetacular, incrível, Lillith, que vos fala, Pandora e Luciela. Eu informei no diálogo de Ohana que ela estava falando com uma das altas sacerdotisas e logo mostrei para vocês que só sobrou Pandora para participar daquela cena com Ohana.


Pandora está com ódio de Ohana, então, se eu não tivesse excluído as demais, está subentendido de que era Pandora pelo simples fato de ela não suportar falar com a bruxa. Ainda, é a única que mexe com poções.



8) EXCLUA TODAS AS FALAS QUE NÃO TENHAM UM PROPÓSITO ESPECÍFICO.


Introduções (oi, tudo bem, como você está) e despedidas (beijo, até mais, tchau), a não ser que tenham alguma importância específica no enredo ou caracterização dos personagens, são como um peso morto nos diálogos.


Exemplo:

  • — Oi, Lillith, tudo bem? — perguntou a secretária do meu chefe.

  • A secretária do meu chefe me cumprimentou, mas estava tão atucanada que passei sem nem ao menos corresponder ao cumprimento. Ela deve estar me xingando mentalmente nesse exato momento.


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9) OS PERSONAGENS DEVEM DIRECIONAR SUAS FALAS UNS PARA OS OUTROS, NÃO PARA O LEITOR.


Usar diálogos para explicar sua ideia ou detalhes do universo de ficção da sua história provavelmente resultará em falas artificiais. "Heitor, nos conhecemos há 10 anos e desde os tempos da faculdade você diz que vai pedir demissão dessa fábrica de sapatos" é um exemplo de fala que soa mais como do escritor, não do personagem.


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10) EM DIÁLOGOS SINCEROS, HONESTOS E CONFESSIONAIS, AS PESSOAS NUNCA REVELAM A VERDADE SOBRE TUDO O QUE ESTÃO PENSANDO E SENTINDO.


Isso não quer dizer que elas estão mentindo. O comportamento mais humano é deixar de fora aquilo que não ajuda a construir a imagem que desejamos projetar sobre nós mesmos para os outros. Reserve falas onde personagens revelam sua vulnerabilidade para momentos importantes da história.


Exemplo:


— Lillith, você está branca como um papel. O que está acontecendo com você? — questionou Pandora. Forcei um sorriso para tentar fazer com que ela pare de me observar tão de perto. Não posso deixá-la desconfiada.


— Que isso, Pan! Estou bem, só cansada... Não ando dormindo muito bem por causa do barulho. — Isso, anta. Que barulho, sua burra? Moramos em uma floresta!


Pandora me olhou estranha, mas não questionou mais nada. Não posso deixá-la descobrir que estou morrendo de medo de Abaddon. Se eu estiver com medo, todas ficarão com medo também, afinal, a poderosa Lillith está querendo se esconder embaixo da cama.

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11) EXISTEM OUTRAS FORMAS DE UM PERSONAGEM REVELAR OPINIÕES E PENSAMENTOS SEM OS EXPLICAR DIDATICAMENTE.


Diálogos são ótimas oportunidades para troca de experiências. Faça seus personagens contarem histórias de seus passados que ilustram o que eles pensam sobre um assunto. É uma ótima forma de aprofundar nosso conhecimento sobre os personagens e criar um senso de proximidade com eles. Ao invés de usar a fala "Tenho pavor de abelhas", permita ao personagem contar de quando era adolescente e foi atacado por um enxame na frente dos amigos.


— Pandora, desça logo dessa arvore, pelo amor de Lúcifer! É só uma cobra inofensiva — gritou Luciela.


— NUNCA! Depois daquele dia no parque, nunca mais afirmarei que uma cobra é inofensiva. — Nunca, estou falando sério!


— Vamos, Pan! Era uma cascavel, mas essa aqui está mais interessada em achar ovinhos de pássaro para comer, deixe de ser medrosa.


— MEDROSA? Quase faleci! — É, mais ou menos.


— Você está exagerando e sabe disso. Lillith conseguiu drenar o veneno para fora do seu corpo e, dez minutos depois, você até já tinha se esquecido da cobra! — Observei Luciela e a cobra que estava indo mais para dentro da floresta.



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12) ESCOLHA UM CENÁRIO QUE PERMITA A VOCÊ EXPLORAR OS COMPORTAMENTOS DOS PERSONAGENS PARA ENRIQUECER A CENA.


Dois personagens discutindo a relação em um parque de diversões oferece a possibilidade de criação de um diálogo mais dinâmico e original do que se eles estivessem em casa, sentados no sofá.


Exemplo:


— A senhora está sentada no meu lugar — disse para a mulher que estava sentada no meu assento no cinema.


— Pois ache outro para você. — Ela me encarou de cima a baixo e rolou os olhos logo em seguida. Quem ela pensa que é? A rainha? Só tem uma rainha aqui e não é ela.


— Fofa, você irá sair desse lugar por bem ou por mal, mas, como sou uma pessoa melhor do que você, deixarei a escolha em suas mãos. — A estranha me olhou ultrajada. Ela se levantou e derrubou sua pipoca no casal ao lado. Seria cômico se eu não estivesse puta da vida.


— Quem você pensa que é? — gritou a mal educada.


13) MANTENHA OS PERSONAGENS OCUPADOS DURANTE O DIÁLOGO.


Coloque em suas mãos um cigarro, uma cerveja, uma faca, um livro, e faça eles manipularem tais objetos em momentos significativos da conversa, usando esses comportamentos para dar pista do que está se passando na cabeça de cada um deles.


— A pessoa que comprou esse exato assento para assistir o filme — falei calmamente para a enlouquecida. Ela pegou sua bolsa e o refrigerante e logo foi se movimentando para sair do meu lugar, pelo menos era o que eu pensava.


— Espero que saiba nadar, desgraçada! — gritou a louca depois de derramar seu refrigerante no meu cabelo. Olhei-a com todo o ódio que eu estava segundando dentro de mim e joguei meu próprio refrigerante em seu rosto.


— Espero que vá a merda, sua louca varrida!


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14) SAIBA QUANDO UTILIZAR O SILÊNCIO.


Às vezes, o que não é dito tem mais impacto do que aquilo que é dito. Quando um personagem se recusa a responder a uma pergunta específica ou a falar com uma pessoa, o leitor imediatamente intui que há tensão relacionada ao tema da pergunta ou ao personagem que a fez, sem que o escritor precise explicar isso.


— Lillith, que cicatriz é essa aqui no seu braço? Lillith... — Pandora me olhou assustada. Não tinha escutado quando ela entrou no banheiro, fui descuidada. — Lillith! Responda minha pergunta! — Eu estava sem saber o que dizer. Era certo que se eu dissesse que ganhei esse presentinho quando visitei Josias ontem, ela enlouqueceria de vez. — Se não irá responder como uma adulta, vou dar um jeito de descobrir. — Pandora saiu e bateu a porta do banheiro.


Bom pessoal, foi longo, acho que até demais, mas eu queria que estivesse cheio de exemplos para vocês entenderem os pontos que o autor do Blog destacou como importantes. Eu ratifico todos os pontos apresentados aqui, pois também acho esses pontos de extrema importância.



Deixem suas dúvidas nos comentários que responderemos com todo o carinho.

Beijinhos, Lillith.



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